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Chef Cidinha Santiago celebra carreira: "Minha cozinha de raiz me levou longe"

No Dia da Consciência Negra, a chef detalha sua trajetória na gastronomia, celebra o resgate de sua ancestralidade e fala sobre luta para conquistar espaços

Por Amanda Caroline

Cidinha Santiago
Cidinha Santiago
Reprodução/Instagram

Culinarista de televisão, personal chef, palestrante, escritora e criadora de conteúdo. A mineira Cidinha Santiago, de 65 anos, está na história da gastronomia brasileira. 

Parceira do chef de cozinha e apresentador Edu Guedes há 18 anos, é muito querida pelo público do programa The Chef, da Band. Suas receitas e dicas de culinária, tão preciosas, têm raízes ancestrais, algo que Cidinha preza muito e quer deixar como legado.

No Dia da Consciência Negra, a culinarista detalha sua trajetória na gastronomia – são 60 anos de cozinha –, celebra o resgate da culinária ancestral e fala sobre luta para conquistar espaços. Leia entrevista ao Band Receitas:

Culinária ancestral

A cozinha é o lugar favorito de Cidinha desde a infância – ela vivia com a família na pequena cidade de Belmiro Braga (MG). Aos cinco anos de idade, cozinhou pela primeira vez: a mãe saiu de casa para buscar lenha e a chef precisou preparar o almoço para o irmão, que estava com fome. 

“Minha mãe deixou a chaleira com água quente em cima do fogão. Peguei um banquinho, subi e fiz meu primeiro arroz”, conta. No dia seguinte, aprendeu a fazer feijão, tutu de feijão, angu, frango com quiabo e carne de porco, pratos típicos de Minas Gerais. E não parou mais.

Minha mãe era doceira e meu pai era padeiro. A culinária, para mim, é ancestral. Está no meu DNA.

Durante a adolescência, Cidinha trabalhou como babá, o que fez a culinária permanecer em sua vida. Ela aprendeu a fazer quitutes, como bolos, e aperfeiçoou suas habilidades na cozinha. A chef compartilha um truque da época e chama atenção para o conhecimento ancestral.

“Antigamente, a gente não tinha relógio. Toda vez que a gente fazia uma massa de pão de fermentação natural, colocava uma bolinha pequena de massa em um copo com água fria, e deixava. Quando a bolinha subia, o pão já tinha crescido o suficiente para ir ao forno. Hoje, a gente tem toda a tecnologia, mas a tecnologia ancestral é a mais certa. A gente percebe o quanto os ensinamentos dos nossos ancestrais são importantes.”

Cidinha na TV: quando tudo começou

Aos 18 anos, Cidinha se mudou para Juiz de Fora (MG), onde estudou Enfermagem e trabalhou como cozinheira de famílias portuguesas, francesas e italianas. Ela aprendeu a fazer receitas desses países e usou todo o seu conhecimento para escrever o livro ‘Receitas de Comidas Típicas’.  A iniciativa da chef virou assunto em um telejornal da TV Globo – “empregada doméstica lança livro de culinária”, diz Cidinha sobre o tema da reportagem – e, depois disso, tudo começou a mudar.

A chef se mudou para São Paulo (SP) junto com a família para quem trabalhava como cozinheira. Ela se estabeleceu na cidade e também trabalhou como educadora, dirigindo uma creche. Cidinha, que nunca deixou de estudar, aproveitou sua chegada à capital paulista para fazer cursos de gastronomia. Em um deles, conheceu seu “padrinho” na profissão, o chef e professor Benjamin Abrahão, que o apresentou para a icônica culinarista e apresentadora Ofélia Anunciato. Foi assim que a mineira entrou na televisão, no fim dos anos 1980, como assistente de culinária no programa ‘Cozinha Maravilhosa da Ofélia’, na Rede Bandeirantes de Televisão. “Comecei na Band e voltei para a Band”, brinca.

“Ajudei a Ofélia nos bastidores por seis meses. Um dia, a diretora Márcia Saad disse que eu entraria no ar com ela. Fiquei com a Ofélia por nove anos, até ela falecer”, conta Cidinha Santiago. Além da Band, a chef também passou pela Record TV.

Luta por respeito

De volta para Belmiro Braga (MG), a grande missão de Cidinha, hoje, é compartilhar com sua comunidade tudo o que está aprendendo – e não apenas sobre gastronomia, mas, principalmente, sobre a importância de conquistar espaços. 

“Quero ensinar ao povo preto que a gente tem que olhar no olho, que a gente não pode abaixar a cabeça. Quero falar isso para os jovens. Quero mostrar que saí da cidade pequena e fui para São Paulo, Nova York (EUA), fui homenageada… A minha cozinha de raiz me levou longe, tenho reconhecimento e público”, declara.

Em 2017, Cidinha foi homenageada com o título de membro honorário da Federação Italiana de Cozinheiros no Brasil (FIC Brasile). Depois, em 2021, recebeu o Prêmio Nacional Dólmã. Um ano depois, venceu o troféu Micro Influenciadores Digitais na categoria Gastronomia.

Apesar de ter uma trajetória profissional irretocável, a chef ainda enfrenta a subvalorização de seu trabalho por ser uma mulher preta e luta, de cabeça erguida, para ter o reconhecimento financeiro que merece. Ao mesmo tempo, Cidinha celebra o movimento de jovens cozinheiros que buscam resgatar a culinária africana.

“Hoje, não basta a gente ter consciência, a gente ainda precisa acompanhar muito de perto e ter letramento racial. Mas uma coisa eu falo: estou muito feliz. Graças a Deus, nada está perdido. Vários meninos e meninas de universidades, jovens, estão resgatando a ancestralidade na gastronomia. Eles estão trabalhando com consciência e resgatando a nossa cozinha”, finaliza a chef, que pavimentou o caminho para tantos cozinheiros.