Edvana Carvalho

Já ouviu dizer que taurinos adoram comida? A baiana de 51 anos é prova disso. Ela é apaixonada por boa gastronomia, tanto na hora de preparar quanto preparar novos pratos. Atriz de TV e teatro, ela é também ativista pelos direitos na luta feminista e racial.

Repórter de Minha Receita, Edvana Carvalho vai dos palcos à televisão: "A afrocultura brasileira está muito forte no meu trabalho"

Da Redação 07/10/20 • 17:07
Edvana Carvalho mostrará os sabores escondidos da Bahia
Edvana Carvalho mostrará os sabores escondidos da Bahia
Reprodução/Instagram

O programa Minha Receita estreia nesta quinta-feira, 8, com um time diversificado de repórteres. Com gente do norte ao sul do Brasil, eles serão responsáveis por mostrar um pouco mais da culinária e da gastronomia de suas cidades e regiões. Salvador, nos encontraremos com Edvana Carvalho. Atriz, avó e baiana, ela carrega no paladar toda a riqueza da culinária baiana. 

"Quando eu vou para o sul, eu sofro muito porque parece que tem uma comida mais padronizada. Não aguento mais comer feijão preto no Rio de Janeiro ou grelhado com verdura em São Paulo. Aqui tem uma variedade muito grande de comida. Moqueca, feijoada, mininico, bode, sarapatel, cozido. A gente tem uma fatura muito grande", comentou em entrevista ao Portal da Band

"Culinária é uma coisa muito importante na Bahia. Em setembro, a tradição é caruru. A gente não pode fazer por conta da aglomeração. Caruru é uma comida de santo para ser dada às pessoas. Nós aprendemos desde cedo – acho que esse é um ensinamento passado pelos antepassados escravizados, que tinham que dividir tudo – que tudo é comunitário em Salvador. Você faz um prato, leva para vizinha, troca um prato de comida e convida as pessoas para comer", revelou. 

A atriz também contou que outras festas religiosas soteropolitanas estão muito ligadas à comida. "Todas as festas populares na Bahia são de aglomeração e têm a ver com culinária. Na de Iemanjá, é muito forte a feijoada. Quando você vai para o Bonfim, você quer comer feijoada. Carnaval também. Quando a gente sai das festas tarde da noite, a gente vai para a rua comer mocotó, rabada, essas comidas 'leves'", contou. 

 

Olodum e Pelourinho 

Edvana descobriu que queria ser atriz cedo. Fez teatro na escola pública e, depois, foi fazer teatro no espaço do Sesc-Senac no Pelourinho, região do centro histórico de Salvador. Foram quatro anos lá até que participou da Oficina de Verão do Olodum, um dos blocos-afro mais famosos da cidade, com o diretor teatral Márcio Meirelles. Foi essa oficina que resultou no grupo Bando de Teatro Olodum, onde passaram nomes como Lázaro Ramos, Valdinéia Soriano e Luciana Souza. 

"Fizemos o primeiro espetáculo de teatro do Olodum, Essa é a Nossa Praia, que fala sobre as figuras e os habitantes do Pelourinho. Depois, fizemos Ó Pai, Ó que começa a falar da mudança de tirar os moradores da região para colocar o comércio. E depois a gente fez Bye Bye Pelô. Essa é a trilogia do bando, sendo que Ó Pai, Ó é a mais famosa. Virou filme, série de televisão", relembrou. 

"Ali começou a minha militância preta, de entender quem eu era, de onde ou vinha. Foi um buchicho na cidade quando começamos a nos apresentar nos teatros ditos profissionais. Ó Pai, Ó fala sobre o extermínio de crianças pretas na época, nas ruas do centro histórico.  A gente sempre teve um embasamento muito político dentro dos nossos trabalhos artísticos", continuou Edvana. 

"A cultura afrobrasileira está muito forte dentro do meu trabalho de artista, eu não consigo me desassociar disso. Acho que representatividade é muito importante. Então eu utilizo essa ida ao cinema, à TV, como ferramenta de empoderar outras mulheres pretas", completou. 

 

Teatro como instrumento político 

Além de atriz, a repórter de Minha Receita também é professora de escola pública. Formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Edvana utiliza o teatro como instrumento político para empoderar crianças e adultos negros. "Eu não vou lá para montar peça. Eu vou primeiro para que eles se entendam pretos, que gostem de si. Elevar a autoestima dos meus alunos para que eles sigam em qualquer profissão que quiserem", conta. 

Seu último projeto antes da pandemia era uma peça chamada Aos 50 Quem Me Aguenta?, fruto de um estudo que fez na universidade como aluna especial do mestrado. "Entrei em contato com Conceição Evaristo e ela fala sobre a escrevivência. Fui entendendo que tem um momento que a gente tem que soltar a nossa voz. A gente tem que ir para escrita, ter mais mulheres negras que escrevem, que lançam livros", disse.  

A peça fala sobre feminismo, a Lei Maria da Penha e racismo. "Eu precisava fazer um espetáculo que explicasse para as mulheres e para os homens, que falasse sobre empoderamento preto feminino. Sobre discriminação, a solidão da mulher preta. Quis falar sobre isso, mas como a minha escola é o Bando de Teatro do Olodum, a gente faz comédia com a tragédia. Se tem um discurso muito duro, as pessoas não querem ouvir. Então, fiz de uma forma bem gostosa para que as pessoas tenham interesse", finalizou. 

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